Conheça Andrea Fiuza, a Miss Cadeirante Águas Claras

A cadeirante Andrea Fiuza Lino chegou à final da etapa do Distrito Federal e conversou com nossa equipe sobre sua história

Andrea Fiuza alcançou o segundo lugar na competição que elegeu a miss cadeirante do Distrito Federal
Andrea Fiuza alcançou o segundo lugar na competição que elegeu a miss cadeirante do Distrito Federal
(Foto: Arquivo pessoal)

 

Apesar da beleza carregada há quase 33 anos, a servidora pública Andrea Fiuza Lino, formada em Tecnologia de Recursos Humanos, nunca tinha imaginado chegar tão longe quanto chegou na última segunda-feira (07/08), ao alcançar o segundo lugar no Concurso Miss Cadeirante do Distrito Federal, chegando à frente de outras 13 participantes. A competição ocorreu em Ceilândia, e o primeiro lugar ficou com a representante do Lago Sul, Kallyna Sampaio, que se tornou a primeira vencedora desse tipo de competição no Brasil.

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Andrea foi vítima de um acidente de trânsito, em 2003, quando voltava da faculdade - à época, a jovem de 18 anos cursava fisioterapia. A lesão na coluna foi determinante para que Andrea se reconhecesse como outra pessoa, muito mais forte e dedicada do que antes. E essa energia toda, foi convertida em uma campanha singular no concurso que a destacou como a Miss Cadeirante de Águas Claras.

A equipe da Revista Águas Claras conversou com Andrea, para descobrir um pouco mais da vida dela, além dos sonhos e anseios desse exemplo de superação e símbolo do orgulho da cidade.

O que fez você participar do concurso Miss Cadeirante Distrito Federal?

ANDREA: Bom, antes de tudo, eu estava muito relutante, pois sou muito tímida. Só que, com o passar do tempo, fui descobrindo uma causa que me fizesse competir nesse concurso. Não foi a vontade de ser bonita, mas a vontade de mostrar pra sociedade como eu sou capaz de alcançar todos os sonhos que eu tenho. Até mesmo participar de um concurso de beleza. Na verdade, a cadeira é hoje só um acessório que eu utilizo para me locomover. Sou mulher como qualquer outra, tenho sonhos como qualquer outra. E quis quebrar esse tabu de que cadeirante não pode ser bonita.

Quem mais te incentivou nessa empreitada?

ANDREA: Minha mãe e minhas amigas. Eu sou super amiga da minha mãe. Conto com ela para tudo. Sempre me deu muita força e muita garra. Já minhas amigas, sempre me apoiaram e incentivaram. A vida foi me presenteando com cada uma daquelas meninas, e por causa delas eu cheguei até o concurso. Sempre fui muito encorajada por elas, sempre compram briga por mim, pra me defender, e elas vivem a minha realidade. Sou enormemente grata a todas elas.

Você já havia participado de outros concursos de beleza?

ANDREA: Nunca nem imaginei passar por essa experiência. Mas como disse, não participei na ocasião só pela beleza. Eu estava ali por uma causa, pra mostrar que eu sou normal como qualquer outra. Tanto que foi uma surpresa enorme eu conquistar o segundo lugar.

Como você viu o universo dos bastidores?

ANDREA: A experiência como um todo foi muito bacana. Eu aprendi muito lá. Acho que um dos maiores ganhos que todas as participantes tiveram, apesar do título, foi o aprendizado. Convivi com pessoas que têm características parecidas com a minha, e todas sempre com a mesma alegria que eu. Nunca nos vimos como concorrentes, mas como parceiras. Sempre tinha uma que ajudava a outra a se arrumar, a se maquiar. Foi um momento ímpar. Acrescentou muito na minha vida

Você pretende seguir carreira de modelo?

ANDREA: Eu sou muito tímida para isso. Mas eu toparia participar de alguma coisa, se tivesse a causa que eu me propus.  Acho que tem muito mais do que só ser cadeirante em jogo.

Você já se sentiu discriminada pela sua deficiência?

ANDREA: Com certeza. No começo é tudo muito mais difícil. Eu levei um tempo até me acostumar com a minha nova realidade. Depois do acidente, levei um tempo até reaprender a ser independente. E assim que eu fui me aceitando como eu era, como era minha nova realidade, passei a deixar de me importar com o olhar dos outros quando eu saio.

Teve algum caso de discriminação que tenha te marcado?

ANDREA: Lembro que teve uma vez em que eu namorei um rapaz [já depois do acidente], e a mãe dele acreditava que eu seria um fardo na vida dele. Ela chegou a pensar que eu dependeria dele minha vida toda. Mas eu nunca fui assim. Eu lutei muito pra conquistar tudo o que eu conquistei até hoje. Infelizmente nosso relacionamento não deu certo, e essas atitudes da mãe dele pesaram muito no fim disso tudo. Nós chegamos até a noivar, mas não deu certo. Hoje, nem contato temos mais.

O que você fez para fazer do seu acidente, a sua força?

ANDREA: Acredito que tenha sido uma construção. Hoje eu sou muito bem resolvida, mas só quem me acompanhou desde 2003 é que sabe o tanto de coisa que eu tive que superar, principalmente na minha cabeça. A ajuda dos meus familiares e amigos foi fundamental. Além, claro, da igreja, que me auxiliou nos momentos de maiores dúvidas.

Na época em que estive internada, pouco depois do acidente, convivi com pessoas que tinham mais tempo de lesão, e que levavam uma vida normal, como a de qualquer outra pessoa. Acho que veio delas a inspiração para eu perceber que poderia ser a mesma Andrea de sempre. Eu posso e vou realizar todos os sonhos possíveis. O que não realizar, tenho consciência de que não será por conta da cadeira [de rodas].

Como você lida com o fato da sua beleza chamar tanto a atenção?

ANDREA: Nesse ponto eu sou muito tranquila. Claro que eu tenho a minha vaidade, e que gosto de receber elogios. Afinal, quem não gosta? Mas eu acredito que a beleza seja apenas um detalhe na minha pessoa. Tento não deixar isso mudar a minha essência. A cadeira, hoje, me atrapalha em algumas coisas, mas não me deixa desanimar em nada.

Sobre a cadeira, então, o que te machuca mais?

ANDREA: Bom, eu tento filtrar bastante as informações, os olhares, as perguntas que recebo. Se uma pessoa não entende o que aconteceu comigo, ou se não se aproximam de mim por esse motivo, eu já agradeço de cara. Por que isso deixa evidente que ela não quer conviver comigo. E nem eu quero conviver com preconceito.

Mas acho que não poder me locomover sozinha sempre é o que mais me machuca. A questão da acessibilidade é algo que ainda precisa melhorar e muito no nosso país. As pessoas acham que qualquer rampa é suficiente, e não entendem o que se passa na nossa vida [dos cadeirantes].

E o que te alegra mais?

ANDREA: Ah, se eu vejo uma "rampinha" bonitinha, em que eu possa sair do meu carro e andar numa boa, eu fico até emocionada. Meio que eu ganho meu dia [risos].

Hoje, você é funcionária pública. Como é a sua rotina no trabalho?

ANDREA: Eu adoro falar sobre eles [colegas de trabalho], porque ao invés de me tratarem como alguém carente, eles me tratam como um funcionário qualquer. Eu levo bronca dos meus chefes quando preciso, ouço elogios quando mereço, e isso me deixa muito contente. É chato quando as pessoas te tratam de forma diferente só por causa da sua condição física.

Mas você tem algum tipo de dificuldade em exercer a sua função?

ANDREA: Foi adaptado todo o local, para que eu pudesse trabalhar lá. Tudo foi pensado e elaborado para me receber. A minha mesa é adaptada, a altura da impressora é acessível para mim. Até vaga exclusiva eu tenho, apesar de o Detran [Departamento de Trânsito do DF] nunca ter pintado a vaga de forma correta. Sempre guardam a vaga com um cone, e quando eu chego, liberam para eu estacionar.

Já sofreu algum tipo de preconceito lá dentro?

ANDREA: Não. Graças a Deus. No dia do desfile, inclusive, o pessoal do serviço foi me prestigiar, e eu fiquei super feliz em vê-los. Todos ficaram muito tristes por eu não ter vencido, mas quando me viram sorrindo e toda contente com o segundo lugar, cederam e comemoraram junto. São muito especiais para mim.

Como foi a repercussão da sua conquista no concurso?

ANDREA: Meu celular quase quebrou de tantas mensagens [risos]. No meu serviço, todos felizes e tristes, ao mesmo tempo. Mas todos viam como eu estava extasiada com todo o resultado. Foi tudo lindo. Não fiquei triste em momento algum por não ter sido eleita a Miss Cadeirante Distrito Federal. Mas só em já ter chegado à fase final, principalmente porquê eu tenho certeza que minha proposta foi ouvida, minhas intenções foram propagadas, e tenho ainda mais convicção de que todos que estavam lá, se conscientizaram pelo menos um pouco.

O que você pretende fazer nos próximos dez anos?

ANDREA: No âmbito profissional eu já estou satisfeitíssima. Mas na vida pessoal, ainda tenho minhas metas, sonhos e desejos, como ter a minha própria família: casar com um cara legal e especial, ter filhos, etcetera e tal. Já sou vencedora por estar onde estou. Agora só preciso de alguém para dividir isso e ser ainda mais feliz!

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